ODISSEIA
Autor: Homero
Ano: 2011
576 páginas
Editora: Penguin-Companhia
Tradutor: Frederico Lourenço
Antes: Ilíada
Foco: Epopeias gregas
Depois: Fábulas de Esopo
A “continuação indireta” de Ilíada, Odisseia carrega para si algumas alcunhas muito importantes, pois, mesmo sendo, principalmente pelos críticos, uma história aquém da perfeição de Ilíada, é tido como um épico de narração mais sofisticado; aspira modelos do que em breve virá a ser o teatro grego ao trazer lapsos de comédias, tragédias e dramas satíricos; pode ser considerado o primeiro romance em verso e como a primeira obra de ficção científica.
De maneira mais simplória, a saga de Ulisses, cheia de aventuras e situações inesperadas, é mais comumente mencionada em inspirações, que vão desde a outras epopeias clássicas, como Eneida e Os Lusíadas, passando por romances de outros movimentos literários, como Ulisses, de James Joyce, e não somente, mas sua estrutura, de aventuras e luta pela sobrevivência é base para até o mais básico dos livros atuais.
Dividido em três momentos dentro dos 24 cantos (e mais de 12000 versos), Telemaquia, Viagens de Ulisses e Vingança de Ulisses, Odisseia narra, de modo geral, a história do herói Ulisses, que partiu de sua terra, Ítaca, rumo a Guerra de Tróia, e mesmo com o término da Guerra, de 10 anos, não consegue voltar para casa, em parte por conta de seu inimigo, o deus Poseidon, que quer fazê-lo sofrer por conta de um filho mortal.
Tal jornada, do retorno de Ulisses de Tróia até sua casa dura cerca de mais 10 anos, totalizando, assim, 20 anos. O ponto em que a história se inicia é justamente no vigésimo ano, em que os percalços enfrentados serão narrados através de flashbacks. No vigésimo ano, coincidentemente, é o período em que o filho, Telêmaco, já pode ser considerado homem-feito, e com condições de mandar em casa na ausência do pai.
Angustiado com tal situação, de um pai ausente desde que fizera um mês, passando por uma mãe enlutada e obrigada a escolher um novo marido por conta da ausência de notícias do atual, dado como morto, e cerca de 108 homens que querem persuadi-la de que é viúva e deve escolhê-lo como futuro rei de Ítaca, Telêmaco decide percorrer as águas perigosas e nunca antes navegadas por ele, em busca de informações do pai.
Tal viagem é chamada de Telemaquia em alusão ao nome do herdeiro de Ulisses, mas também para mostrar seu amadurecimento, de criança sem pai e sem voz dentro do reino para um homem-feito, com voz e poderio ante seus inimigos e daqueles que querem destruir sua família. É, antes de tudo, um ritual de passagem, uma parte aparentemente desnecessária da epopeia, afinal, menciona o personagem principal raras vezes, mas sua força está justamente em sua transição de jovem para adulto e o que isso irá repercutir no final da epopeia.
Já a partir do quinto canto, somos transportados para Ulisses, preso na ilha de Calypso por 7 anos, quando é, enfim, persuadida por Zeus a liberá-lo, mas não sem dificuldades. Atento, o deus Poseidon trama muitas artimanhas para que o percurso do herói seja, de fato, árduo.
Muitas são as dificuldades encontradas, desde Calypso, passando por Ciclopes, os Lotófagos, os canibais Lestrigões, a deusa Circe, Sereias, a monstruosa Cila, dentre tantas outras coisas, seja em alto mar, em terra firme ou até mesmo no submundo, o Hades.
Talvez pela disposição da história em 20 anos e em muitos cenários, com personagens e situações diferentes, Odisseia seja um livro mais gostoso de se ler, menos denso ante os 51 dias de guerra em Ilíada.
Mesmo datado de 8 séculos antes de Cristo, é um livro de aventuras não somente cinematográfico, mas que abrange tanto os gêneros da sessão da tarde, como os épicos dignos de Oscar. Não por acaso é considerado um livro muito mais acessível e doméstico que Ilíada, por abordar de maneira muito mais humana e palpável os laços afetivos, seja de Telêmaco pela mãe, Penélope ou por Ulisses, seu pai; seja pelo herói e seu pai, Laertes, ou até mesmo pela diplomacia em Ítaca, de bons costumes com a vizinhança, com os estrangeiros e necessitados, algo mais ponderado que a cólera e a birra irrefreada de Aquiles antes as situações que vivia.
O herói-protagonista, aliás, é um caso a parte, não desmerecendo Aquiles: mais humano, sofre, chora, ri, sente raiva, mas acima de tudo, mostra ao leitor porque é chamado de Ulisses de mil ardis, pois mesmo diante das circunstâncias, é paciente, ardiloso, perspicaz e corajoso, sem contar com sua fama imensa, que chegou até os céus, mesmo em vida.
Um prato cheio de aventuras fantásticas, muitas delas nem sempre verdadeiras, afinal, Ulisses é conhecido por tais oratórias e dolos, Odisseia é um livro que, sinceramente, tem tanto a oferecer quanto Ilíada. Tão similares, mas ao mesmo tempo tão distintas, não estão por acaso como os poemas fundamentais no cânone ocidental.
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